Enquanto batermos na tecla de trocar pessoas ao invés de processos de administração pública, nada mudará na política nacional.

Nas últimas décadas, a esquerda ocidental tem priorizado a construção de hegemonia cultural, inspirada nas ideias de Antonio Gramsci, em detrimento da tomada direta do poder estatal. Essa estratégia envolveu a ocupação de espaços simbólicos chave, como universidades, mídia, sistemas educacionais, produção cultural e até a linguagem moral cotidiana, visando moldar valores sociais, consensos e noções do que é aceitável ou “progressista”.

Contudo, o cenário contemporâneo revela tensões profundas nesse modelo. O avanço eleitoral de forças conservadoras, populistas e soberanistas na América Latina, Europa e além — exemplificado por figuras como Trump, Bolsonaro, Meloni ou Milei — junto à contestação crescente de pautas identitárias, ambientalistas radicais e abordagens tecnocráticas, sugere que essa hegemonia cultural está perdendo sua capacidade de operar de forma consensual. Em vez de uma internalização espontânea de ideias, observamos resistência organizada, polarização exacerbada por algoritmos de redes sociais e rejeição cultural explícita, frequentemente alimentada por narrativas de “elitismo” ou “controle excessivo”.

Isso não implica que as formulações de Gramsci estejam obsoletas; ao contrário, ele previa que hegemonias entrariam em crise ao falharem em atender expectativas materiais e morais da sociedade, como empregos estáveis, segurança econômica e liberdade de expressão. O que vemos hoje é uma crise de legitimidade multifacetada: promessas de inclusão, igualdade e progresso sustentável não cumpridas, são cada vez mais vistas por amplas parcelas da população como máscaras para censura discursiva, priorização de agendas globais sobre demandas locais e intolerância ao dissenso legítimo. Essa percepção é agravada por falhas internas da esquerda, como divisões ideológicas e desconexão com classes trabalhadoras tradicionais.

Estamos, assim, em um período de transição hegemônica instável, no qual o consenso anterior se desgasta sem que um novo se estabeleça de forma consolidada. Essa disputa vai além das eleições, englobando confrontos culturais, simbólicos e digitais em múltiplos níveis. Diferentemente de uma simples reformulação de narrativas, o resultado pode incluir não apenas consensos renovados, mas também escaladas de conflito, com potenciais para autoritarismo ou divisões sociais duradouras. O desfecho dependerá da capacidade de diversos atores políticos, independentemente de suas orientações ideológicas, em criar alianças que integrem dimensões culturais e econômicas, alinhando-se à visão gramsciana de hegemonia como um processo dinâmico e multifacetado, sem predeterminar vencedores ou perdedores.

Em suma, o avanço e o questinamento de forças de direita sobre esta metodologia, vem reunindo adesões que têm o potencial de fazer retroceder a disceminação das práticas grancianas.

A ideia central é que, no Ocidente, o poder se sustenta menos pela força e mais pela hegemonia cultural — isto é, pelo consenso social sobre valores, costumes e “o que é normal”.

Portanto, antes de mudar o Estado, seria preciso mudar a cultura.

Para alguns autores, a revolução cultural não é um evento, mas um processo longo, gradual, difuso e muitas vezes inconsciente — pode levar décadas!

Antonio Gramsci expôs suas ideias nos Cadernos do Cárcere, escritos entre 1929 e 1935, durante sua prisão pelo regime fascista. Ao todo, são 33 cadernos, com mais de 2.400 páginas, dedicados a analisar a dominação social para além do uso da força, destacando o papel da cultura, das ideias, da moral e da liderança intelectual.

Circulam, porém, textos conhecido como “Decálogo de Gramsci” e/ou “10 Máximas de Gramsci”— às vezes também atribuído a Lênin — que não existem nos Cadernos do Cárcere, nem em cartas, artigos ou outros escritos de Gramsci. Tratam-se, portanto, de textos apócrifos.

Essas formulações são, na prática, sínteses interpretativas criadas por comentaristas ou militantes, que resumem ideias recorrentes dos Cadernos em frases curtas e normativas.

Independentemente da autoria, tais textos costumam ser apresentados com finalidade didática, por condensarem estratégias e conceitos frequentemente associados à atuação política da esquerda no contexto das sociedades ocidentais atuais.

  1. Hegemonia: A ideia central de Gramsci, que descreve a supremacia de uma classe social não apenas pela coerção (força física), mas principalmente pelo consenso e direção intelectual e moral sobre as classes subalternas.
  2. Sociedade Civil: Para Gramsci, é o conjunto de organismos privados (igrejas, sindicatos, escolas, meios de comunicação etc.) que difundem ideologias e constroem o consenso, funcionando como “aparelhos privados de hegemonia”.
  3. Estado Ampliado: A visão de que o Estado moderno não é apenas o governo e os aparatos de coerção (polícia, exército), mas a combinação da sociedade política (coerção) e da sociedade civil (consenso).
  4. Intelectuais Orgânicos: Diferente dos intelectuais “tradicionais” (que se veem como independentes), os orgânicos são aqueles que estão intrinsecamente ligados a uma classe social específica (como a burguesia ou o proletariado) e trabalham ativamente para elaborar e difundir sua visão de mundo (ideologia).
  5. Filosofia da Práxis: É a abordagem materialista e dialética do marxismo, que enfatiza a unidade inseparável entre teoria e prática na transformação da realidade social.
  6. Bloco Histórico: Refere-se à aliança de forças sociais (classes e frações de classes, intelectuais e partidos) que formam a base de sustentação de um determinado sistema hegemônico, unindo a estrutura econômica e a superestrutura ideológica.
  7. Guerra de Posição: A estratégia política para a tomada do poder em sociedades ocidentais complexas. Envolve uma luta ideológica e cultural prolongada dentro da sociedade civil para erodir a hegemonia dominante e construir uma contra hegemonia.
  8. Guerra de Movimento: A estratégia revolucionária mais direta e frontal (típica do modelo russo), que busca um assalto rápido e direto ao poder do Estado, algo que Gramsci considerava inadequado para o Ocidente.
  9. Revolução Passiva: Um processo de mudança social e política em que as classes dominantes introduzem reformas limitadas para evitar uma revolução real e preservar seu próprio poder, “absorvendo” as demandas das classes subalternas.
  10. Senso Comum e Bom Senso: Gramsci analisou o “senso comum” como um conjunto desorganizado e acrítico de ideias, crenças e superstições. O objetivo da ação política e educativa é transformá-lo em “bom senso”, uma visão de mundo mais coerente e crítica.
  1. Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual
  2. Infiltre e depois controle todos os veículos de comunicação de massa
  3. Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discussões sobre assuntos sociais
  4. Fale sempre sobre democracia e Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o poder sem nenhum escrúpulo
  5. Colabore para o esbanjamento do dinheiro público; coloque em descrédito a imagem da nação, especialmente no exterior, promovendo greves, mesmo ilegais, nas indústrias vitais
  6. Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não os coíbam
  7. Contribua para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes
  8. Registre todas as armas de fogo, para que possam ser confiscadas no momento oportuno e tornar impossível qualquer resistência à causa
  9. Infiltre parlamentares nos partidos democráticos
  10. Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é (às vezes aparece como frase isolada atribuída a Lênin)

Textos elaborados com auxílio do Gemini, Grok, ChatGPT e Perplexity.