Enquanto batermos na tecla de trocar pessoas ao invés de processos de administração pública, nada mudará na política nacional.

Ao observar a vida cotidiana — e, mais recentemente, a política brasileira — é possível identificar três tipos recorrentes de atores no debate público.

Os incendiários são pessoas ou grupos, de esquerda ou de direita, estejam ou não no poder, que exercem influência sobre a sociedade. Por ação ou omissão, criam situações explosivas, com alto potencial de conflito.

Os bombeiros são os ativistas políticos e cidadãos comuns que, a cada crise, vão às ruas e às redes tentar conter os danos. Usam “baldes e mangueiras” para apagar incêndios que não provocaram, mas que se tornam visíveis quando já estão fora de controle.

Já as brigadas de prevenção de incêndios são raras — quase inexistentes. E aí está o problema central. Diferentemente dos bombeiros, que se especializam em combater o fogo, essas brigadas deveriam atuar antes, evitando que novos incêndios surjam.

O trabalho dos bombeiros é essencial e precisa continuar. Ele estanca crises e evita danos maiores. Mas, sozinho, não tem sido suficiente.

Nenhum incêndio político surge do nada. Todos foram planejados no passado e só aparecem no presente, quando a fumaça já é visível na mídia. Nessa fase, prevenção não é mais opção: resta apenas o confronto direto. É um trabalho heroico, porém reativo, limitado e pouco eficaz para impedir novos focos.

Uma das razões é simples: quem está ocupado apagando incêndios não consegue dedicar tempo à prevenção. É uma constatação dura, mas real.

A boa notícia é que isso pode mudar.

Todo “incêndio” nasce no passado e explode no presente: uma lei aprovada, um político empossado, uma nomeação estratégica, uma obra pública. Quando reagimos apenas no presente, lidamos com fatos consumados, planejados por outros, segundo interesses que nem sempre são os nossos. Acabamos atuando em um roteiro que não escrevemos.

Criar um futuro desejado é a forma mais eficaz de definir o presente. Quem faz isso deixa de ser figurante e passa a ser autor da própria história. Em vez de gastar energia apenas combatendo decisões alheias, passa a trabalhar pela realização dos próprios objetivos.

É exatamente essa a função das brigadas de prevenção: pessoas que se organizam para pensar cenários, estudar, se informar, debater e construir, desde já, o futuro que desejam. Isso exige tempo, leitura, formação e articulação com quem compartilha dos mesmos valores.

Sem essas brigadas, o país seguirá refém de crises recorrentes. Ou criamos o futuro que queremos viver, ou alguém o criará por nós. Enquanto focarmos apenas em apagar incêndios — tarefa necessária, mas insuficiente — continuaremos sempre correndo atrás do prejuízo.